E agora, José? E agora, seu Zé?


No fim do mês passado, perdi meu melhor amigo. Meu pai faleceu devido a uma hemorragia cerebral por conta de um aneurisma. Isso dói. Dói demais perder alguém que foi o principal "culpado" por eu estar aqui. Ainda mais de forma tão repentina. Sem preparação nenhuma, apenas alguns dias de "espera".


Com isso aprendi a nunca deixar de falar para as pessoas que você ama o quanto você realmente as ama. Não deixe as oportunidades passarem. Pois, a vida realmente é muito breve e você pode não ter tempo de dizer pessoalmente quanto aquela pessoa é querida.

E uma das coisas que me arrependo de nunca ter dito para o meu pai era o quanto eu admirava o trabalho dele. Uma grande parte dos seus 54 anos do José Luiz foram dedicados à marcenaria. Ele fazia arte com madeiras e tinha um brilho nos olhos ao exercer seu trabalho. Era uma paixão tão verdadeira que indiretamente me inspirou e nunca percebi. E não poder ter comentado essa admiração me dói bastante agora.

Essa reflexão sobre a paixão dele sobre o trabalho me fez lembrar de algumas conversas, ainda quando eu estava na época da faculdade. A frase pode parecer clichê, mas vindo dele, era a mais pura verdade: "Quando você trabalha com o que ama, o trabalho nunca será um trabalho". Isso deve ter ficado no meu inconsciente todos esses anos, pois continuo com a mesma perspectiva.

Eu me formei em Jornalismo há 5 anos e tive poucas oportunidades de trabalhar efetivamente na área. Foram muitos anos de freelas e um trabalho que me passou uma rasteira absurda. Mas mesmo assim, adoro escrever. Toda profissão tem suas partes ruins, mas poder contar histórias e informar as pessoas é algo que me deixa tão empolgado. Assim como lembro do meu pai empolgado quando aparecia alguns móveis para ele fazer.

Com essa lição que aprendi com meu pai, hoje tudo que mais desejo é voltar para a área de jornalismo. Meu pai era muito feliz fazendo o que gostava. Ele era um artista, assim como alguns conceituados arquitetos, mas sem ter um diploma de uma faculdade. Ele não ganhava muito, mesmo trabalhando quase 30 anos na mesma empresa. Mas era um profissional respeitado por várias pessoas, além de inspirar todos que chegaram depois dele. Apesar das nossas diferenças ao longo dos anos, esse foi o maior exemplo que ele me deu: trabalhar com o que ama e inspirar os outros.

Nunca vou esquecer quando eu fiz um trocadilho que eu fiz com o poema do Carlos Drummond de Andrade. Lembro de uma época em que a frase que mais ouvia quando estava na oficina dele era "E agora seu Zé?". Ela era dita sempre quando alguém queria pedir um conselho. Ou para resolver algum problema com uma solução muito simples, mas que poucos tinham a calma de avaliar as possibilidades. Então, ele foi um artista. Ele foi um sábio.

Vinte oito anos foram muito pouco para absorver tanto conhecimento que eu precisava. Ficam as lembranças das longas conversas que eram muito melhor do que os anos de terapias. Tenho que agradecer todas as lições que aprendi durante esse tempo e os conselhos que sempre surgem ao lembrar dos nossos conversas durante os diversos almoços. 

Só fico triste, pois não sei para quem vou perguntar "E agora seu Zé?"

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